Campo de Concentração Sachsenhausen

Este foi o post mais difícil que tive que escrever até agora… Tentar passar por palavras tudo o que vi e o que senti durante a visita ao campo de concentração de Sachesenhausen é completamente impossível. Pois não existem palavras suficientes para retratar as atrocidades que aquele lugar assistiu…

Ainda no quarto de hotel reparamos que o dia tinha acordado bem cinzento e triste, tal como o local que íamos visitar…

Antes de partir abastecemos-nos com sandes, pois tínhamos lido algures que não havia nada nas redondezas do campo e sabíamos que íamos passar toda a manhã e início de tarde por lá… Apanhamos a linha de comboio S1 em direcção a Oranienburg (Não fazer confusão com a estação Oranienburguer Str., também na mesma linha) e quando estávamos quase a chegar reparamos que tinha começado a nevar… Fiquei bastante entusiasmada, mas o entusiasmo passou de imediato quando me apercebi que tinha que andar, até chegar ao campo, debaixo daquela neve…

Cerca de 45 minutos depois chegamos à paragem Oranienburg, a última da linha S1. Mas o campo ainda fica a cerca de 2 km de distância da estação de comboio.

É possível apanhar um autocarro, mas decidimos ir a pé… Não sei se foi a melhor decisão, pois além de estar um frio de gelar, estava a chuviscar e a nevar…

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Passados uns 15/20 minutos chegamos ao campo. A entrada é gratuita, mas toda a gente aconselhava o aluguer do áudio-guia, para melhor compreensão do que íamos vendo no campo. E foi isso que fizemos, pagamos 3€/cada e não nos arrependemos nada de o ter feito, pois apesar de haver painéis, em inglês e alemão, durante o percurso no campo, é completamente diferente ouvir todos os detalhes que os áudio-guia nos proporciona, e até mesmo relatos com histórias de pessoas que estiveram prisioneiras neste campo.

Para alugarmos os áudio-guias tivemos que deixar os nossos cartões de cidadão na recepção, como garantia que devolvíamos o respectivo aparelho. Com o guia é-nos entregue um mapa. Nesse mapa existem números de cada local, e quando queremos ouvir a explicação é só digitar o número e colocar o aparelho junto ao nosso ouvido. Confesso que a logística não foi fácil… andar com um mapa enorme, tentar digitar o numero com as luvas calçadas, sobre um frio congelante e neve… No final do percurso o mapa desintegrou-se completamente, devido à neve e à chuva que apanhou…

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O campo de concentração de Sachsenhausen foi construído no verão de 1936 e inicialmente era para prisioneiros políticos. Foi considerado um dos três maiores campos de concentração na Alemanha e funcionou até Abril de 1945, quando os soviéticos invadiram a Alemanha.

No edifício de entrada para campo existe um relógio que marca a exacta hora em que os prisioneiros foram libertados e atravessaram o portão para a conhecida “marcha da morte”.

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“O Trabalho Liberta”, é com esta frase que fomos recebidos à entrada do campo de concentração. Aliás, não apenas neste campo, mas em todos os campos nazis os prisioneiros encontraram esta expressão no portão de entrada.

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Muitos judeus foram atraídos para os campos de concentração por achar que se tratava de um asilo do governo, pois era essa a mensagem que faziam passar no rádio, onde transmitiam que havia abrigo, alimentos e seriam tratados dignamente… Mas quando chegaram viram da pior maneira possível que as promessas que tinham ouvido não passavam de um engano.

Assim que entravam nos campos havia uma selecção, os que tinham capacidades de fazer trabalhos forçados ficavam… Mas a maior parte dos idosos, crianças, e mulheres eram logo aniquilados…

Os que ficavam tinham que deixar todos os seus pertences assim que chegavam, e cada um recebia uma farda às riscas. Na farda havia um triângulo, e através desse triângulo sabia-se a razão de ali estar… Se tivessem um triângulo amarelo era porque eram judeus, se fosse rosa eram homossexuais, por sua vez os presos políticos tinham um triângulo vermelho.

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Estima-se que cerca de 200 mil pessoas passaram por este campo de concentração, entre 1936 e 1945. Muitos dos prisioneiros morreram de fome, de doenças, de trabalhos forçados, e até por terem sido submetidos a experiências médicas hediondas.

Dentro do campo vamos percorrendo pelas áreas onde os prisioneiros dormiam, onde trabalhavam e até onde eram assassinados…

IMG_5332Grande parte das barracas que abrigavam os prisioneiros foram destruídas, agora nessa área existe apenas uma marca de cimento e brita.

Nas barracas 38 e 39 era o local onde se encontravam os prisioneiros judeus. Actualmente estas barracas foram transformadas em museu, onde podemos encontrar histórias dos prisioneiros judaicos, assim como, vários pormenores do dia-a-dia dos prisioneiros dentro do campo.

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Aqui era onde os prisioneiros, de manhã, faziam a sua higiene pessoal. Por vezes chegavam a juntar-se cerca de 400 pessoas neste local. Tinham cerca de 30 minutos para se despacharem até começarem a trabalhar, desde acordar, fazer a sua higiene, e comer.

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Alguns dos utensílios utilizados pelos prisioneiros.

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Um dos objectos onde transportavam os prisioneiros mortos.

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Um dos objectos onde transportavam os prisioneiros mortos.

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A prisão.

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A prisão.

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Imagens dos crematórios.

Apesar de já ter lido diversos livros e visto vários filmes e documentários sobre o holocausto, e pensar que já sabia bastante sobre o assunto, nada foi suficiente para me preparar para uma visita a um campo de concentração. É impossível estarmos dentro do campo e não pensarmos que todas as atrocidades e monstruosidades que aconteceram naquele sítio que onde estava naquele preciso momento.

A energia que se sente dentro do campo é muito pesada, aqui ninguém consegue sorrir, nem falar alto, é impossível sentirmos felizes ali dentro. Tristeza, é o sensação que nos acompanha durante toda a visita ao campo.

É como se o sofrimento ainda permanecesse naquele espaço, nem o sol se atreveu aparecer durante a nossa visita.

Já próximo do fim da nossa visita, chegamos ao local, que na minha opinião é o mais pesado deste campo… a Estação Z.

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A estação Z era o local onde os prisioneiros eram levados para serem fuzilados e, posteriormente, cremados. Este nome, Estação Z, foi dado pelos soldados como uma brincadeira (mórbida), uma vez que a entrada dos prisioneiros fazia-se pela Torre A, a saída era considerada a Estação Z… Por outras palavras, para eles, ninguém devia ter saído dali com vida…

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Ruínas dos fornos onde eram cremados os prisioneiros.

À entrada da zona dos crematórios, há uma placa com uma frase de um prisioneiro, que sobreviveu, que me marcou bastante. E dizia o seguinte: ” E eu sei de uma coisa mais – que a Europa do futuro não pode existir sem comemorar todos aqueles que, independentemente da sua nacionalidade, foram mortos na época com total desprezo e ódio, que foram torturados até à morte, que morreram de fome, em câmaras de gás, incinerados e enforcados…”

Algumas pessoas, no silêncio do seu olhar, sei que acharam um turismo mórbido quando disse que fazia questão de ir ao campo de concentração, na minha passagem por Berlim. E esta frase diz muito do meu pensamento sobre isso, não podemos simplesmente esquecer o que aconteceu, fingir que nada se passou num passado tão recente. É importante que testemunhemos tudo isto, para que nada do género se volte a repetir.

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Algumas informações úteis:

– Apesar de ter lido que não existia nenhum local onde fosse possível comer, existe um pequeno café  dentro das instalações do campo, onde é possível beber uma bebida quente e/ou comer qualquer coisa ligeira.

– A maneira mais fácil e prática de aqui chegar é através da linha S1, e descer na estação Oranienburg (última da linha).

– Esta zona fica fora da zona do centro de Berlim, por isso, para aqui chegar é preciso ter um bilhete que cubra a área ABC.

– Da estação de comboio até campo, ainda são cerca de 2 Km. É perfeitamente possível ir a pé, como eu fiz. Mas também existem autocarros que fazem paragens até ao campo de concentração.

– A entrada é gratuita, mas aconselho o aluguer do audio-guia.

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2 respostas a Campo de Concentração Sachsenhausen

  1. Incrível! Fiquei muito curiosa…

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